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Em Belém, o Dia de Gênero da COP30 põe mulheres no centro das negociações, e reforça que a justiça climática exige justiça de gênero e financiamento
O Dia de Gênero levou o debate sobre justiça climática e justiça de gênero ao centro da COP30, em Belém, com milhares de mulheres ocupando os espaços do evento e defendendo ações concretas.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que não há como separar clima e gênero, e que políticas eficazes precisam lidar com os impactos desiguais das mudanças climáticas.
A ONU Mulheres, representada por Ana Carolina Querino, reforçou a cobrança por metas, dados desagregados e financiamento para garantir respostas efetivas, conforme informação divulgada pela Agência Brasil.
Vozes na COP30 destacam a ligação entre gênero e clima
Para Márcia Lopes, a justiça climática só será real quando houver justiça de gênero em todas as etapas da tomada de decisão, da prevenção ao pós-desastre.
“A ciência, os dados e os territórios mostram para nós, todos os dias, que as mulheres são as mais atingidas pela falta de água, pela insegurança alimentar, pela pobreza do tempo, pela perda de renda e pelo aumento da violência durante os desastres. E esses impactos têm cor e território”, disse Márcia Lopes.
O recado ecoou nos corredores da conferência, onde lideranças comunitárias e pesquisadoras apontaram que raça, classe e território ampliam vulnerabilidades e devem orientar políticas públicas.
Ao colocar essas camadas no centro do debate, a COP30 busca alinhar compromissos climáticos com proteção social, direitos e equidade de gênero.
Impactos desproporcionais e sobrecarga de cuidados
Os desastres climáticos atingem as mulheres com mais força, do acesso à água à segurança econômica, e ampliam riscos de violência e perda de renda.
Segundo a ONU Mulheres, o calor extremo e eventos extremos elevam a demanda por cuidados de pessoas idosas e com deficiência, o que recai majoritariamente sobre as mulheres.
“O aquecimento, o aumento das temperaturas, leva a situações onde as pessoas que precisam de cuidados, como as pessoas com deficiência, os idosos, acabam sofrendo mais, e aí gerando uma carga de cuidados aumentado para as mulheres, como as principais responsáveis”, diz a representante da ONU.
Esse cenário intensifica a chamada pobreza do tempo, reduzindo a participação em trabalho remunerado e em espaços de decisão, o que impacta a justiça climática.
Sem reconhecer essa sobrecarga, políticas podem falhar na execução, perpetuando desigualdades e deixando mulheres fora da gestão de riscos e de respostas locais.
Mulheres lideram soluções e elevam eficácia
Mesmo diante de desigualdades, as mulheres são apontadas como guardiãs de soluções para adaptação e resiliência, fundamentais à justiça climática.
“Elas cuidam das sementes, da água, dos quintais produtivos, mantêm as cozinhas comunitárias, solidárias e as hortas, preservam saberes ancestrais, lideram redes de solidariedade. Os estudos mostram que, quando as mulheres participam da gestão ambiental, os resultados podem ser até sete vezes mais eficazes.”
Para Ana Carolina Querino, as respostas precisam ser específicas, com desenho centrado nas vivências e soluções das mulheres em seus territórios.
“Porque, se as mulheres vêm sofrendo esses efeitos, elas também vêm desenvolvendo, pela sua resiliência, soluções que podem estruturar esses espaços mais formais”, reforçou.
Ao fortalecer redes locais, cozinhas solidárias e agricultura urbana, multiplicam-se resultados de mitigação e adaptação, com impacto social imediato.
Metas, dados e governança, PTGL em revisão e financiamento
A ONU Mulheres defende metas desagregadas por gênero e o uso de dados reais para orientar políticas e medir impactos na justiça climática.
“Temos dados que indicam que mais de 250 milhões de mulheres serão empurradas para uma situação de pobreza e de insegurança alimentar. Enquanto a gente olha para os homens, esse número é de 130 milhões.”
O Programa de Trabalho de Lima sobre Gênero, o PTGL, criado em 2014, busca integrar gênero na Convenção do Clima e teve sua vigência prorrogada na COP29, em Baku, até que seja elaborado um novo plano.
Para avançar, especialistas apontam que planos precisam vir com monitoramento, participação e recursos, garantindo a agência e a liderança das mulheres.
“A gente sabe que um plano específico de ação não necessariamente é suficiente se não vier acompanhado de medidas de prestação de contas, se não vier acompanhado de um compromisso político forte, se não vier acompanhado de medidas para garantir o poder de agência, a liderança das mulheres e o financiamento”, concluiu Ana Carolina.
Na COP30, o chamado é por financiamento climático que chegue às bases, com transparência, e por participação plena das mulheres em todas as instâncias decisórias.
Ao alinhar governança, dados e recursos, o debate reforça que justiça climática e justiça de gênero precisam caminhar juntas para resultados duradouros.