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quarta-feira, junho 3, 2026

Na COP30, filha de Chico Mendes exige protagonismo dos povos da floresta, critica petróleo na Foz do Amazonas e cobra financiamento climático

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Ângela Mendes diz que decisões climáticas precisam ouvir povos da floresta, defende Resex, alerta para lobby fóssil e vê esperança em alianças na Amazônia

Em Belém, na COP30, Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, pediu centralidade para povos da floresta nas decisões climáticas, criticou o avanço do petróleo e defendeu reservas extrativistas como barreiras ao desmatamento.

À frente do Comitê Chico Mendes, ela destacou ações com juventude e mulheres na Resex Chico Mendes, reforçando a carta escrita por seu pai pouco antes do assassinato, visão que inspira formação, memória e resistência no Acre.

A conversa ocorreu no Espaço Chico Mendes, no Museu Paraense Emílio Goeldi, e avaliou mobilizações, lobbies e caminhos para uma transição justa na Amazônia, conforme informação divulgada pela Agência Brasil.

Protagonismo na COP30 e financiamento para territórios

Para Ângela, sem povos da floresta nas mesas de decisão, a justiça climática não se cumpre. Ela resumiu a frustração com os resultados parciais e cobrou apoio financeiro para quem protege a floresta nas bases.

“Eu entendo que as COPs avançaram muito pouco no que diz respeito aos direitos dessas populações que estão nesses territórios, que também são estratégicos.”

“Agora, eu não acredito que elas estão sendo ouvidas nesse contexto de COP. Mas ainda é cedo [para afirmar]. Acho que essa semana muita coisa está sendo definida.”

Ela disse torcer por um acordo que libere recursos. “A gente ainda vai ter notícias sobre o que de fato saiu como resultado concreto. Eu entendo que todos estamos torcendo muito para que saia um acordo que possibilite o acesso a financiamento climático.”

A ativista celebrou as ruas. O Porongaço reuniu extrativistas com mais de mil participantes, a Marcha Mundial pelo Clima levou mais de 70 mil pessoas, sinais de força da Amazônia e de soluções vindas do território.

Alianças, sociobioeconomia e caminhos práticos

Ângela defende alianças entre comunidades, academia, bancos e indústria, para escalar a sociobioeconomia. O objetivo é gerar renda com a floresta em pé, com povos da floresta no centro do valor.

“A aliança com as academias ela é superimportante. A academia produz conhecimento, pesquisa e a gente sabe: os cientistas dizem que ainda há muito a ser pesquisado na Amazônia.”

Ela cobrou crédito inclusivo. “Os bancos podem também deixar de financiar apenas o agronegócio, o setor da mineração e entender que é importante também que abram linhas de financiamento para os pequenos empreendedores.”

Sobre a indústria, pediu repartição de benefícios. “Poderia muito bem repensar isso e incluir as comunidades nesse processo, formar juventude para fazer essa manipulação, construir estruturas locais para fortalecer.”

Ângela alertou para riscos da perda de biodiversidade. “Porque, veja bem, se um dia que essa floresta acabar, de onde eles vão retirar o muru-muru? Onde eles vão retirar o ipê branco, o pau-rosa para produzir os seus produtos?”

O Comitê Chico Mendes foca jovens e mulheres na Resex Chico Mendes. A inspiração vem da carta de Chico: “Desculpem. Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado”.

Resex como barreira ao desmatamento e garantia de modos de vida

Para a ativista, as reservas extrativistas protegem clima e cultura. Elas são muralhas contra o desmate e resguardam modos de vida que mantêm a floresta viva e produtiva para gerações futuras.

“As reservas extrativistas são territórios estratégicos. Assim como as terras indígenas têm essa importância para a gente tentar manter o clima abaixo desse 1,5º C, que a gente não vem conseguindo.”

Ela lembrou que as primeiras Resex surgiram em 1990. Hoje, são 96 sob gestão federal, além de estaduais e municipais, somando mais de 60 milhões de hectares protegidos, com mais de 1 milhão de famílias vivendo nesses territórios.

O Comitê Chico Mendes nasceu na noite do crime que matou o líder seringueiro, para cobrar justiça e preservar sua memória. Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira foram condenados em 1990 a 19 anos de prisão.

Ângela pontuou que o legado segue atual. A agenda inclui educação ambiental, fortalecimento comunitário e produção sustentável, compromisso direto com povos da floresta e com a Amazônia viva.

Petróleo na Foz do Amazonas, impunidade e defesa de direitos

Ângela criticou o peso do lobby fóssil nas cúpulas do clima e o tratamento a manifestações indígenas na Blue Zone, além de temer retrocessos com novos projetos de exploração na Amazônia.

“Tanto é que a gente vai ter esse licenciamento para a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Então, ainda é um desafio muito grande a gente lutar contra o lobby dessas indústrias dos combustíveis fósseis.”

Ela relatou um cenário tenso nos territórios. “A gente sabe que os fazendeiros que têm os babaçuais nas suas terras estão fechando tudo, impedindo-as de continuar tirando o coco, colhendo o coco para se sustentar.”

Sobre conjuntura, ela avaliou avanços e limites. “Apesar de estarmos com o governo progressista, a gente ainda tem esse Congresso que é fascista, a gente tem a maior parte dos governadores que são de extrema direita.”

Mesmo com os desafios, a esperança guia o trabalho. Perguntada se está otimista com a COP, respondeu: “Eu estou. Porque se fosse para ficar pessimista, a gente não teria feito todo o esforço que a gente fez para trazer esse espaço maravilhoso aqui para a COP.”

Ângela reforçou que justiça climática exige ouvir povos da floresta, financiar suas iniciativas e reconhecer soluções do território. Na COP30, ela vê uma chance concreta de corrigir rumos na Amazônia.

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