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quarta-feira, junho 3, 2026

COP30 em Belém escancara justiça climática na Vila da Barca, onde palafitas, racismo ambiental e falta de saneamento revelam urgência por moradia digna

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Comunidade ribeirinha na baía do Guajará relata casas que balançam, chuva dentro de casa e desabamento, enquanto a COP30 debate financiamento e justiça climática

À margem da baía do Guajará, a Vila da Barca vive com marés altas, chuvas intensas e casas de madeira sobre palafitas. Em passarelas estreitas, mães, idosos e crianças convivem com medo diário, entre frestas, barulho e apreensão.

Na madrugada de sexta, 14, uma casa desabou, quatro moradores, entre eles uma criança e uma pessoa com deficiência, escaparam após ouvir estalos que anunciaram o colapso. O caso acendeu o alerta em toda a comunidade.

Enquanto a COP30 acontece a poucos quilômetros, as reformas nas Docas e no Parque da Cidade ganham vitrine. Nas palafitas, porém, a vida segue frágil e desigual, evidenciando justiça climática, conforme informação divulgada pela Agência Brasil.

Vozes da Vila da Barca

A aposentada Cleonice Vera Cruz, 77, vive no bairro há quase seis décadas. Ela descreve o cotidiano com o vento e a maré. “Quando dá um vento, a casa sacode. Se passar uma pessoa aí do lado, a gente sente porque a casa balança”.

As chuvas intensas agravam o risco e invadem as casas por fendas entre tábuas. “Ontem [17] deu uma chuva, mas uma chuva valendo que molhou tudinho aqui. Agora, eu ainda estava enxugando, é tudo furado aqui”.

Na vizinhança, Maria Isabel Cunha, a Bebel, cria dois filhos, um deles com deficiência. Sem trabalho fixo, ela resume as dificuldades. “O dinheiro que chega não dá para a gente ajeitar a casa para mim e meu filho mais novo. Seria bom ter um emprego fixo. Eu cheguei a mandar currículo para trabalhar de arrumadeira num hotel, mas não deu certo. Preciso de tempo para cuidar do meu filho, que é especial”.

Mesmo com a COP30 perto, muitos não acompanham os debates técnicos. Bebel notou as obras nas áreas turísticas e comentou, “Ficou bonito lá, né”. Cleonice se surpreendeu com a presença indígena e brincou, “Não sabia que tinha tantos indígenas”.

Racismo ambiental e dados que preocupam

Estudo da Habitat para a Humanidade Brasil expõe quem mais sofre com eventos extremos. 66,58% das pessoas em áreas de risco são negras, 37,37% dos lares são chefiados por mulheres, com renda média de R$ 2.127 (55%).

A infraestrutura é insuficiente nessas áreas. 20,29% dos domicílios sob risco não têm esgoto e 2,41% não têm coleta adequada de lixo. Entre 2013 e 2022, 2,1 milhões de casas foram danificadas e 107 mil destruídas por desastres.

Para a ONG, os números evidenciam racismo ambiental. “A conclusão permite evidenciar a questão do racismo ambiental. A maioria das pessoas que estão morando em área de risco é negra, de baixíssima renda, que chega a ser a metade da renda de quem vive em áreas que não são de risco nessas mesmas cidades. Mulheres chefe de domicílio também têm predominância bem importante, assim como pessoas que não sabem ler e nem escrever”.

Na Vila da Barca, a crise climática é também social e habitacional. O desabamento no meio da COP30 escancara a urgência de políticas que integrem justiça climática, moradia e renda.

Obras, permanência e adaptação

A comunidade soma cerca de 600 moradias de palafitas e abriga mais de mil famílias. Fica no Telégrafo, que reúne cerca de 5 mil moradores, parte em alvenaria. A vida local é pulsante, com festas juninas e o Círio de Nazaré.

Em julho, a Águas do Pará iniciou obras de água e esgoto, investimento de R$ 15 milhões. A primeira fase de água foi concluída, com hidrômetros individuais. A tarifa social informada é de R$ 66,42, e o esgoto deve ficar pronto até abril do próximo ano.

Para os moradores, a melhoria precisa vir com permanência segura. Gerson Siqueira resume o sentimento. “A gente precisa defender o meio ambiente, mas está se falando bem pouco ou quase nada sobre o cuidado e a proteção de quem mora debaixo da copa das árvores. Nós somos milhares de brasileiros que moramos na Amazônia, que não tem saneamento básico ou tem de forma precária, que o sistema de abastecimento de água também é precário”.

Ele questiona o foco dos debates. “A gente precisa pensar como é que essa população vai passar por esse processo? As discussões lá na Blue Zone [da COP30] falam de financiamento, mas e a moradia? Será que a questão ambiental não passar por moradia digna?”

No horizonte da comunidade, moradia digna é prioridade. “A gente está trazendo melhorias para a vila, a mitigação de um problema, mas a gente precisa dar uma destinação. Elas vão continuar ali, morando sobre palafitas, até quando? Até quando o Estado brasileiro vai permitir que essas famílias continuem morando assim? A gente espera que tenha um conjunto habitacional com moradia digna, com infraestrutura necessária, para que elas consigam desenvolver a vida delas aqui”.

COP30, NDCs e cidades na linha de frente

O debate global precisa alcançar as periferias urbanas da Amazônia. Segundo a rede da Habitat para a Humanidade, apenas 8% das NDCs tratam de cidades, favelas e financiamento para adaptação.

Sem foco urbano, a justiça climática patina e comunidades ficam vulneráveis. A gerente Raquel Ludermir alerta. “A gente defende muito a possibilidade de permanência dessas comunidades, mas com melhores condições de segurança, de habitabilidade, adaptabilidade também. Ou seja, fortalecer a resiliência dessas comunidades, que muitas vezes são confundidas com falsas soluções, porque algumas dessas políticas de adaptação climática têm justificado a remoção de comunidades inteiras, o que não é justo”.

Entre a vitrine da COP30 e as passarelas de madeira, Belém vê dois mundos lado a lado. Integrar moradia, saneamento e financiamento climático é o caminho para proteger vidas na Vila da Barca.

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