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Em meio à COP30, a Vila da Barca, em Belém, expõe como palafitas, maré e chuvas intensas evidenciam a busca por justiça climática e moradia digna a poucos quilômetros do Parque da Cidade
Às margens da baía do Guajará, a Vila da Barca reúne casas de madeira sobre palafitas, erguidas por ribeirinhos desde o início do século passado, em contraste com as Docas turísticas e os holofotes da COP30.
Enquanto líderes discutem clima, a rotina é de risco. Na última sexta, uma casa desabou, quatro moradores, entre eles uma criança e uma pessoa com deficiência, escaparam após ouvir estalos, vizinhos acolheram quem perdeu tudo.
A crise ambiental também é social e habitacional, dizem moradores. Dados da Habitat para a Humanidade Brasil reforçam desigualdades e riscos, conforme informações da Agência Brasil.
Vozes da comunidade, medo, maré e cuidado com a vida
“Quando dá um vento, a casa sacode. Se passar uma pessoa aí do lado, a gente sente porque a casa balança”, diz Cleonice, 77, moradora há quase seis décadas, descrevendo a fragilidade das palafitas na maré.
Em dias de chuva forte, o medo se multiplica. “Ontem [17] deu uma chuva, mas uma chuva valendo que molhou tudinho aqui. Agora, eu ainda estava enxugando, é tudo furado aqui”, conta a aposentada.
O contraste é diário. Perto dali, a região das Docas recebeu investimentos e virou vitrine da COP30, enquanto a Vila da Barca luta por serviços básicos, segurança estrutural e justiça climática efetiva.
A diarista Bebel, mãe solo, sintetiza a vulnerabilidade. “O dinheiro que chega não dá para a gente ajeitar a casa”, diz. Ela busca emprego fixo, mas precisa de tempo para o cuidado do filho com deficiência.
Para a associação de moradores, a agenda climática precisa incluir gente. “A gente precisa defender o meio ambiente, mas está se falando bem pouco ou quase nada sobre o cuidado e a proteção de quem mora debaixo da copa das árvores”, afirma Gerson Siqueira.
Ele questiona a conexão entre financiamento e moradia. “A gente precisa pensar como é que essa população vai passar por esse processo? As discussões lá na Blue Zone [da COP30] falam de financiamento, mas e a moradia? Será que a questão ambiental não passar por moradia digna?”.
Racismo ambiental em números, quem mais sofre com eventos extremos
Levantamento da Habitat para a Humanidade Brasil mostra que 66,58% dos moradores em áreas de risco são negros, em 129 cidades, expondo desigualdades que a COP30 precisa encarar com urgência.
O estudo aponta que 37,37% dos domicílios em risco são chefiados por mulheres, renda média de R$ 2.127, 55% da média local, além de 20,29% sem esgoto e 2,41% sem coleta adequada de lixo.
Entre 2013 e 2022, o país registrou 2,1 milhões de casas danificadas por desastres climáticos e 107 mil destruídas, cenário que conecta clima, moradia e renda, eixo central da justiça climática.
“A conclusão permite evidenciar a questão do racismo ambiental”, diz Raquel Ludermir. Ela ressalta a predominância de negros, mulheres chefes de família e pessoas sem alfabetização nas áreas mais vulneráveis.
Infraestrutura, permanência e adaptação, o que muda com as obras
Na Vila da Barca são cerca de 600 palafitas e mais de mil famílias. No bairro do Telégrafo, a população chega a 5 mil, parte em áreas já aterradas, um mosaico que exige políticas de adaptação local.
A Águas do Pará executa obras de R$ 15 milhões para água e esgoto. A primeira fase do abastecimento foi concluída, famílias receberam hidrômetros, a taxa social prevista é de R$ 66,42, a rede de esgoto deve ficar pronta até abril.
Gerson cobra horizonte de dignidade. “A gente está trazendo melhorias para a vila, a mitigação de um problema, mas a gente precisa dar uma destinação”, afirma, pedindo moradia segura e infraestrutura completa.
“Elas vão continuar ali, morando sobre palafitas, até quando?”, questiona. “A gente espera que tenha um conjunto habitacional com moradia digna, com infraestrutura necessária”, reforça o líder comunitário.
A vida cultural resiste, com festas juninas, blocos e a imagem peregrina no Círio de Nazaré, símbolos de pertencimento. Resiliência, solidariedade e fé sustentam a comunidade na espera por justiça climática.
COP30 e as cidades na linha de frente, da Blue Zone às palafitas
Segundo a rede da Habitat, apenas 8% das Contribuições Nacionalmente Determinadas, as NDCs, citam urbanização, favelas e comunidades, lacuna que a COP30 precisa fechar com planos e financiamento.
Raquel alerta para falsas soluções. “A gente defende muito a possibilidade de permanência dessas comunidades”, diz, pedindo segurança, habitabilidade e adaptabilidade, sem remoções injustas.
“Algumas políticas de adaptação climática têm justificado a remoção de comunidades inteiras, o que não é justo”, afirma. O debate da COP30 precisa alcançar quem mora sob risco imediato nas cidades.
Moradores citam impactos visíveis, a revitalização das Docas chamou atenção, a presença indígena surpreendeu, mas poucos acompanham negociações no Parque da Cidade. A justiça climática começa com moradia segura.
Conectar a COP30 a água, esgoto, renda e habitação é urgente. Sem incluir as periferias urbanas, metas climáticas ficam no papel, longe das palafitas que balançam a cada maré e da vida que pede proteção agora.