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quarta-feira, junho 3, 2026

Brasil deve adotar cautela entre EUA e Irã, parceiro do Brics, e preservar negociações comerciais com os EUA enquanto avalia riscos para exportações

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Brasil enfrenta dilema entre apoiar negociações com os EUA e manter laços com o Irã, novo membro do Brics, em meio a ataques e retaliações

O governo brasileiro optou por uma postura de cautela diante dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que respondeu com lançamento de mísseis, e defendeu a volta à negociação como caminho para a paz.

Especialistas ouvidos avaliam que a posição busca equilibrar a necessidade de continuar negociações tarifárias com os EUA e, ao mesmo tempo, preservar relações com um país que agora integra o Brics.

O posicionamento oficial, as avaliações de professores e os dados sobre comércio bilateral indicam uma postura pragmática, com preocupação sobre possíveis efeitos econômicos, principalmente no agronegócio, conforme informação divulgada pela Agência Brasil.

Posição oficial e apelo à negociação

Em comunicado divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores, o governo afirmou que a negociação é a “posição tradicionalmente defendida pelo Brasil na região” e que “O Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil”.

A nota reflete a tentativa de manter distância de um confronto aberto, enquanto o país monitora desdobramentos e prepara-se para a agenda diplomática, incluindo evento previsto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos EUA, Donald Trump, no fim de março.

Pressões políticas e equilíbrio entre aliados

Para o professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, o Brasil precisa buscar uma “posição intermediária” entre Irã e Estados Unidos, diante do novo status iraniano como membro dos Brics e das negociações comerciais em curso com os americanos.

O professor titular aposentado Williams Gonçalves, da Uerj, ressalta que “O Brasil tem uma relação com a Rússia e com a China forte e tem uma relação não tão forte, mas tem uma relação com Irã”, assinala o professor.

Gonçalves acrescenta que “Estão todos [países] dentro do mesmo barco do Brics, todos engajados, pelo menos teoricamente, na ideia de mudança da ordem internacional”, enfatiza Gonçalves, o que aumenta a pressão por uma postura cautelosa do Brasil.

O mesmo pesquisador lembra ainda que “Nossa posição tem sido de muita cautela, procurando assim não fazer nada que aparente ser uma provocação ou uma reação forte”, afirma, mas alerta que o desenrolar dos fatos pode exigir respostas mais firmes.

Gonçalves conclui, criticando intervenções externas, que “O Brasil, que sempre defendeu a autodeterminação dos povos, que sempre defendeu o princípio da não ingerência, não pode agora apoiar governos que intervenham em outros estados com a finalidade de mudar o sistema político escolhido pelo seu povo”, avalia.

Negociações comerciais com os EUA e risco de atrito

O Brasil mantém conversas com os Estados Unidos sobre tarifas impostas em agosto passado, que chegaram a taxar produtos brasileiros em até 50%.

Segundo especialistas, há receio de que antagonizar o governo americano possa prejudicar acordos comerciais importantes, sobretudo em um momento em que ainda se busca remover produtos da lista de tarifas e retomar diálogo com Washington.

O pesquisador Leonardo Paz Neves, da FGV, considera a nota governamental “protocolar” e avalia que “Não acho que o presidente Lula e o Brasil vão se engajar muito nesse conflito. Está muito longe do Brasil, não tem grandes interesses específicos do Brasil nesse processo. Obviamente o Brasil está em uma tentativa muito prolongada de negociação com os Estados Unidos”, avalia.

Ele enfatiza que o país deve manter uma posição “crítica institucional”, convocando Irã e Estados Unidos a voltarem à mesa de negociação, “Mas sem se envolver muito fortemente porque tem muito a perder”, ressalta.

Paz Neves observa também que “Ele [Lula] sabe como o Trump funciona, e antagonizar com o Trump agora é atrair uma atenção negativa para o Brasil muito grande”, justifica.

Impacto econômico e comércio com o Irã

Do ponto de vista econômico, a escalada pode afetar preços de petróleo, pressionando inflação no Brasil, e afetar o comércio bilateral com o Irã, que compra commodities brasileiras.

Dados oficiais mostram que, em 2025, a corrente de comércio Brasil-Irã ficou em US$ 3 bilhões, o equivalente a mais de R$ 15 bilhões. O Brasil teve superávit, tendo exportado US$ 2,9 bilhões e importado US$ 85 milhões.

O Irã foi no ano passado o 31º país para os quais o Brasil mais exportou, com o principal produto sendo o milho não moído, que responde por 67,9% do valor dos embarques, seguido pela soja, com 19,3%.

Analistas alertam que se o conflito escalar e o Irã ficar cercado por ação naval, pode haver dificuldade logística para enviar cargas, e setores como milho e soja podem perder um comprador relevante, afetando receitas e cadeias produtivas.

Em resumo, a estratégia brasileira, orientada para a negociação e para contenção, busca preservar tanto as relações comerciais com os EUA quanto o espaço de cooperação dentro do Brics, enquanto acompanha riscos econômicos e humanitários emergentes.

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