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Cineastas negras criam circuitos, redes e distribuidoras independentes para enfrentar apagamento histórico, desigualdade no financiamento e falta de espaços de exibição
A trajetória de Edileuza Penha de Souza e de Camila de Moraes mostra como iniciativas de cineastas negras transformam práticas no cinema brasileiro.
Elas atuam em formação, pesquisa, realização e distribuição, criando espaços para filmes e públicos que o circuito tradicional ignorou por décadas.
Conforme informação divulgada no material recebido, as ações vão de mostras competitivas a distribuidores itinerantes, e sustentam uma mudança que busca reparação e políticas públicas.
Reconhecimento, pesquisa e memória
Edileuza Penha de Souza construiu um trabalho que articula estética, política e formação, com obras como a série Negritude, Cinema e Educação.
Sua pesquisa a levou à redescoberta de Adelia Sampaio, primeira cineasta negra do Brasil, cujo nome permanecia praticamente ausente das narrativas do cinema nacional.
Em suas palavras, “Eu só encontrava o nome de homens. Isso me causou uma angústia enorme. E foi essa angústia que me levou até Adelia.”
Em 2014, Edileuza idealizou a Mostra Adellia Sampaio e propôs o primeiro Encontro Nacional de Cineastas Negras, com a primeira mostra competitiva de cinema negro Adélia Sampaio, ação pensada para reparar um apagamento histórico.
Ela afirma que “Propusemos, ainda em 2014, o primeiro Encontro Nacional de Cineastas Negras e, dentro dele, a primeira mostra competitiva de cinema negro Adélia Sampaio. Competitiva porque não havia no Brasil nenhum festival que premiasse cineastas negras. Queríamos reparar esse apagamento.”
Para Edileuza, formação, pesquisa e realização são inseparáveis, “Nós, mulheres negras, aprendemos a nos virar nos 30, Sou professora, pesquisadora e realizadora porque tudo está interligado. A inquietação acadêmica me leva à realização, e a realização me leva à formação de público.”
Distribuição independente e circuitos alternativos
Camila de Moraes enfrentou barreiras na produção e circulação de seus filmes e reinventou o modelo tradicional para alcançar o público.
Sobre a produção de O Caso do Homem Errado, ela conta que “Foi uma produção independente desde o início. Tentamos editais, não conseguimos. Quando gravamos em 2016, marcamos um ato em maio, no Cine Capitólio. O ato lotou e tornou o filme não inédito, o que fechou portas nos festivais.”
Sem distribuidora, Camila criou a Borboletas Filmes para colocar o filme em sala, e esse esforço se tornou peça-chave para a circulação de obras de realizadores negros no país.
Ela descreve a rotina das estreias itinerantes, “Fizemos tudo por conta própria. Cada estreia tinha debate, envio de HD, divulgação, custo de correio. Ficamos um ano nessa luta. É muito difícil sem investimento para distribuição.”
Além disso, com recursos da Lei Paulo Gustavo, Camila criou o Circuito Filmes que Voam, que equipou espaços culturais de Salvador e promoveu sessões semanais com participação numerosa da comunidade.
Dados, apagamento e urgência por reparação
Os números que acompanham essas histórias mostram a urgência das mudanças propostas por cineastas negras.
“Uma pesquisa da Ancine (2016) apontava que apenas 2% dos diretores de filmes lançados comercialmente eram negros. Entre roteiristas, o índice era de 4%.”
Além disso, “Em 2019, o GEMAA/Uerj revelou que, entre 142 longas brasileiros lançados, apenas um havia sido dirigido por uma mulher negra. Entre 1908 e 2015, dos mais de 2,5 mil filmes brasileiros produzidos, menos de 1% teve protagonistas negros.”
Edileuza lembra que “Se Viviane Ferreira só recebeu financiamento estatal para um longa em 2018, sendo a primeira mulher negra, isso mostra o tamanho da dívida,” e que o audiovisual está conectado à luta por direitos básicos, como saúde e educação.
Camila questiona os critérios de investimento e pontuação que impedem produtoras negras de acessar recursos, “Mesmo com cinco longas lançados, minha distribuidora não atinge a pontuação mínima para acessar recursos. Os nossos filmes têm público, têm impacto, mas não são reconhecidos como mercado. Por quê?”
O que fica e o caminho adiante
As trajetórias das duas cineastas mostram estratégias que atuam em várias frentes, da pesquisa histórica à ocupação de salas e da formação de público à pressão por políticas públicas.
Edileuza resume a importância do coletivo, “Quando mulheres negras ascendem, a carreira é de muita solidão, Por isso, o encontro é tão importante.”
Camila conclui que, quando o caminho convencional não acolhe, é preciso criar alternativas e lutar por estrutura pública para mantê-las, “Se o caminho convencional não nos acolhe, criamos outro caminho. Mas precisamos de estrutura pública para manter esse caminho aberto.”
As iniciativas de cineastas negras apontam para um audiovisual mais plural, e mostram que sem revisão das políticas de financiamento e distribuição, muitas obras e públicos continuarão à margem.