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quarta-feira, junho 3, 2026

Mulheres negras no centro da cena, centenárias e jovens marcham por reparação e bem viver na 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, força e memória coletiva

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Mulheres negras de todas as regiões, de 10 a 101 anos, ocuparam Brasília para exigir reparação, bem viver e reconhecimento, mostrando a força do movimento

Em Brasília, na reta final de novembro, milhares de mulheres repetiram um gesto antigo, de luta e cuidado, e transformaram as ruas em espaço de denúncia e memória.

Entre vozes jovens e centenárias, a marcha reafirmou demandas por reparação, políticas públicas e pela construção de formas de vida mais justas.

Figuras como Maria Adelina, 77, Valmira dos Santos, 83, Maria de Lourdes, 88, e Maria dos Santos Soares, 101, estiveram na mobilização, simbolizando mais de três séculos de resistência.

conforme informação divulgada pela Agência Brasil

Centenárias e memória viva

Ao lado de filhas e netas, Dona Santinha, de 101 anos, marchou com os punhos erguidos, recebendo abraços e agradecimentos ao longo do percurso.

Ela disse, sobre seu percurso de vida e ativismo, “Eu sou muito audaciosa e eu tenho um espírito político desde pequena. Eu não tinha essa consciência que tenho hoje, esse conhecimento. Mas sempre fui destemida. E, agora, mais do que nunca. Eu não sei ser indiferente aos fatos”.

Ela lembrou as mudanças cotidianas que viveu, e afirmou, “Já fui da época em que você chegava no bar e diziam que não aceitava preto. Isso em 1950, não tem tanto tempo assim. Hoje é crime. A pessoa pode ter vontade de nos hostilizar, mas se calam. Já é um grande avanço”.

Movimento em crescimento e estratégia

Organizadoras relataram emoção ao ver a amplitude do ato, estimado em quase 500 mil mulheres, e destacaram a continuidade entre gerações como fator de fortalecimento.

Valdecir Nascimento, do Comitê Nacional da Marcha, afirmou, “Significa que o que a gente plantou em 2015 cresceu e tá dando fruto. Significa ver as jovens querendo tocar, puxando, sem que a gente tenha um conflito sobre isso. Então, 10 anos depois, a gente está mais madura. Nós estamos mais estratégicas. Quem tinha 15, 16, 20, agora tem 25, 30, 45. Então, é isso. A ideia de continuidade, a ideia de coletividade, nós precisamos reafirmar que somos coletivas, sozinhas a gente não vence. E é isso que essa marcha reafirma. É por nós, não é por uma ou outra, é por nós”, comemora.

Para organizadoras, a marcha é também um laboratório político, um espaço para articular pautas como saúde, educação, terra e memória.

Reparação, bem viver e alternativas

A diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, ressaltou que a luta por reparação é uma questão de justiça, lembrando o papel das mulheres negras na construção do país.

Jurema declarou, “Era hora da gente voltar. Nesses últimos 10 anos, a sociedade se moveu. No primeiro período, reconhecendo a presença das mulheres negras, que assumiram postos de destaque nesse período; mas o outro lado se reagrupou, os supremacistas brancos, os racistas, os conservadores saíram para a rua também para confrontar tudo que a gente propôs para enfrentar o grau de violência contra nós e piorar a situação social e política no Brasil e no mundo”.

Ela também afirmou, “Enquanto for possível, todas nós ocuparemos as ruas; enquanto for necessário, todas nós ocuparemos as lutas todas em todas as direções, porque o Brasil precisa ser um lugar diferente, o mundo precisa ser um lugar diferente. A gente sabe o que é o bem viver e a gente quer compartilhar essa proposta para além do capitalismo, para além do neoliberalismo, para além do racismo, existe uma outra forma de habitar o planeta e a gente está novamente reapresentando essa proposta”.

No encontro, além de cantos e performances, as participantes trouxeram relatos de perda e de trabalho diário, reforçando que a demanda por reparação dialoga com políticas públicas concretas e reconhecimento histórico.

Continuidade e cuidado coletivo

As líderes e as mais velhas presentes destacaram que a marcha não é um ato isolado, mas parte de uma trajetória longa, que une memória, organização e expectativas de futuro.

Como sintetizou Dona Santinha, em tom de afeto e responsabilidade, “Eu me sinto uma andorinha, com sua gotinha. Ajuda, né?”, lembrando que cada presença, por menor que pareça, soma para manter viva a busca por justiça e bem viver para as mulheres negras.

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