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quarta-feira, junho 3, 2026

Facções criminosas na Amazônia crescem 32% em um ano, FBSP revela avanço de CV e PCC, rotas do narcotráfico e crimes ambientais na Amazônia Legal

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Na Amazônia Legal, a presença de facções criminosas na Amazônia atinge 344 de 772 cidades, com CV e PCC em expansão, rotas fluviais e aéreas impulsionando o narcotráfico e crimes ambientais

O novo mapa da violência mostra um salto da atuação de facções criminosas na Amazônia, agora presentes em 45% dos municípios. Foram 344 cidades com organizações ativas, frente a 260 no ano anterior, um avanço de 32% em um curto período.

O relatório cita 17 grupos em operação, nacionais e estrangeiros, com destaque para CV e PCC. Segundo o estudo, narcotráfico e crimes ambientais caminham juntos, ampliando lucros e o controle territorial dos grupos.

Para a diretora do FBSP, Samira Bueno, transição energética e justiça climática exigem segurança e cidadania nos territórios. O estudo foi lançado na COP30, em Belém, conforme informação divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Expansão e municípios afetados

A 4ª edição do Cartografias da Violência na Amazônia identifica facções criminosas na Amazônia em 344 dos 772 municípios. Em doze meses eram 260, o que compõe um crescimento expressivo, sinal de capilaridade do crime organizado.

O documento lista 17 grupos ativos, entre eles CV, PCC, ADE, B40, PCM, FTA, UCA, CCA, B13, Bonde dos 777, Tropa do Castelar, Piratas do Solimões, BDM e GDE. Há também a Tren de Aragua e a EMC, com atuação transnacional.

O Comando Vermelho aparece em 286 cidades, dominante em 202 e em disputa em 84. O PCC tem influência direta em 90, com hegemonia em 31 e disputa em 59, um cenário de expansão simultânea e conflitos locais.

Em mensagens atribuídas a facções, a intimidação sustenta a ordem criminosa. Diz um trecho citado no estudo, “Lembrando que aqueles que não estiverem fechando com nós será liberado o mesmo ser roubado e também ser brecado de trabalhar”.

O texto segue, “Se por acaso insistir será queimado sua máquina e poderá perder até mesmo a própria vida por estar batendo de frente”, prova do controle coercitivo sobre trabalhadores e atividades econômicas locais.

Rotas do tráfico e crimes ambientais

O CV mantém maior controle das rotas fluviais, em especial no eixo do rio Solimões, em conexão com a produção peruana e cartéis colombianos. Portos de Manaus, Santarém, Barcarena, Belém e Macapá aparecem como pontos de escoamento.

Segundo o estudo, as facções usam embarcações regionais, lanchas rápidas, submersíveis e mulas humanas. Além do tráfico, disputam o varejo da droga e operam em garimpos ilegais, ampliando receitas e lavando recursos ilícitos.

O PCC foca a internacionalização de mercados, com rotas aéreas clandestinas partindo de pistas em garimpos e unidades de conservação, e corredor oceânico via Suriname, conectando Amapá e Pará a circuitos internacionais de drogas.

Como resume Samira Bueno, “O estudo mostra que essas facções, majoritariamente ligadas ao narcotráfico, veem na Amazônia e nos crimes ambientais novas formas de ganhar dinheiro e lavar dinheiro”.

Disputas e violência nos estados

Em 2024, os 772 municípios da Amazônia Legal registraram 8.047 mortes violentas intencionais, taxa de 27,3 por 100 mil, 31% acima da média nacional. O Amapá teve 45,1 por 100 mil, o pior índice regional e do país.

No Maranhão, o estudo mostra alta de 11,5% nos homicídios entre 2023 e 2024. O estado vive disputa entre Bonde dos 40, CV e PCC, evidência do embate por rotas e pontos de venda em áreas urbanas e de fronteira.

Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato Grosso, teve 42 assassinatos em 2024, eram 12 em 2022. A cidade é estratégica pela proximidade com a Bolívia e concentra parte da Terra Indígena Sararé, onde o garimpo explodiu.

Sobre Sararé, diz o estudo, “A situação em Sararé é muito impressionante. O Comando Vermelho chegou e passou a controlar toda a cadeia da extração de minério, principal do ouro”.

O documento continua, “Não é mais só o garimpeiro, que já era um problema. É o garimpeiro que paga taxa ao Comando Vermelho para explorar o território”.

Conclui, “A lógica de controle territorial armado que vemos no Rio de Janeiro vai acontecendo nos territórios amazônicos”, cenário que amplia o risco e pressiona comunidades tradicionais.

Sorriso, também em Mato Grosso, registrou 72 homicídios em 2024. A cidade, referência do agronegócio, segue entre as que mais notificam estupros de vulnerável, situação que acende alertas de proteção social.

O Mato Grosso se tornou prioritário para o tráfico, com longa faixa de fronteira com a Bolívia, grande produtora de cocaína. Desde 2023 há tensão entre o CV e a Tropa do Castelar, dissidência aliada ao PCC.

A Pan Amazônia se consolidou como corredor para o abastecimento de cocaína em mercados da Europa, da América do Norte, da África e da Oceania, reforçando o papel estratégico da região.

Violência contra mulheres e políticas públicas

O relatório contabiliza 586 mulheres assassinadas em 2024 na Amazônia Legal, taxa de 4,1 por 100 mil, 21,8% acima da média nacional. Mato Grosso lidera letalidade feminina, com 5,3 por 100 mil, o Maranhão teve alta de 19,8%.

Para Samira, “Olhando para essa mulher na Amazônia, que vive em territórios mais afastados dos centros urbanos e fica mais vulnerável, a gente precisa ser capaz de oferecer políticas de acolhimento”.

Ela acrescenta, “de empoderamento econômico e de enfrentamento à violência que dialoguem com a realidade dela”, reforçando a urgência de respostas alinhadas às condições locais.

Samira defende a adaptação dos modelos, “O que a gente tem hoje no Brasil em modelos de tratamento de violência doméstica? Como você lida com violência doméstica em uma aldeia indígena?”

Ela completa, “Como lida com violência doméstica em um município de fronteira, em que você não tem nenhum equipamento estatal especializado? Temos esse desafio de olhar para as especificidades”.

Sem segurança integrada, a pressão de facções criminosas na Amazônia tende a se manter. O relatório sugere coordenação ambiental, policial e social, com foco em prevenção, inteligência e proteção comunitária.

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