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quarta-feira, junho 3, 2026

UFJF e UFMG pedem desculpas por uso de cadáveres de pacientes psiquiátricos em aulas

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UFJF e UFMG pedem desculpas por uso de cadáveres de pacientes psiquiátricos em aulas

Pelo menos duas universidades federais brasileiras emitiram notas oficiais pedindo desculpas por terem utilizado, em aulas de anatomia, cadáveres de pessoas que foram internadas em hospitais psiquiátricos. A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) divulgou seu pedido de retratação nesta segunda-feira (18), seguindo o exemplo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que havia se manifestado no mês anterior.

Ambas as instituições reconhecem a conivência com práticas que, no passado, contribuíram para a desumanização e o estigma de indivíduos com transtornos mentais. O uso de corpos para fins didáticos, sem o devido respeito ou consentimento, é visto hoje como uma violação de direitos humanos e um reflexo de uma sociedade que segregava e marginalizava aqueles considerados “diferentes”.

As notas das universidades abordam o contexto histórico de exclusão social, onde a internação psiquiátrica muitas vezes significava o isolamento e a submissão a condições precárias e violências. A chamada “loucura” era associada à incapacidade e periculosidade, desvinculada da identidade e dignidade humana, conforme informado pela UFJF.

O triste legado do Hospital Colônia de Barbacena

Um ponto central nas retratações é a ligação com o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. Estimativas indicam que mais de 60 mil pessoas morreram no local ao longo do século XX. O livro “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, revela que cerca de 1.853 corpos de internos foram comercializados para instituições de ensino superior na área da saúde, para uso em aulas de anatomia.

A UFJF, especificamente, recebeu 169 corpos do Hospital de Barbacena entre 1962 e 1971 para estudo em aulas de anatomia humana. Como reparação simbólica, a instituição se comprometeu a desenvolver ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, além de buscar apoio para a criação de um memorial e realizar pesquisas sobre suas conexões com o hospital.

Reparação e novas práticas institucionais

Desde 2010, o Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF implementou o Programa de Doação Voluntária de Corpos – Sempre Vivo. Atualmente, todos os corpos recebidos pela instituição são provenientes exclusivamente de doações voluntárias, acompanhados de ações de conscientização sobre a importância da prática, sempre em conformidade com a lei e o respeito à dignidade humana.

A UFMG, por sua vez, além do pedido de desculpas público, anunciou ações de memória em conjunto com grupos da luta antimanicomial, a restauração de livros históricos de registro de cadáveres e a inclusão do tema em disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina. A universidade ressalta que, desde 1999, possui um programa de doação voluntária e consentida de corpos para estudo de anatomia, alinhado a padrões éticos e legais internacionais.

Um olhar sobre a loucura na cultura e na história

O tema da saúde mental e do tratamento psiquiátrico no Brasil é vasto e complexo, inspirando diversas obras culturais. Um exemplo notório é o conto “O Alienista”, de Machado de Assis, que satiriza os limites entre a sanidade e a loucura em uma sociedade. O Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, também destaca o trabalho pioneiro da psiquiatra Nise da Silveira, que revolucionou o tratamento de transtornos mentais com abordagens humanizadas e o uso da arte.

Matéria produzida pela redação jornalística especializada do portal, com base em fontes verificadas e dados oficiais.

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