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quarta-feira, junho 3, 2026

Facção evangélica TCP se consolida como terceira força do crime organizado no Brasil, alianças com GDE, milícias, extorsão e risco de mais mortes

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A facção evangélica TCP amplia presença no Ceará e no Rio, alia-se a grupos locais como o GDE, adota práticas de milícia e pode intensificar disputas territoriais e homicídios

A facção evangélica TCP vem ganhando espaço e atenção das autoridades por sua expansão territorial, alianças com grupos locais e adoção de práticas típicas de milícias, como a extorsão.

Pesquisadores e delegados apontam que o TCP combina discurso religioso com métodos de violência e financiamento, um fenômeno que tem sido chamado de narcopentecostalismo.

As informações reunidas sobre a entrada do TCP em novos estados, e seus efeitos nas comunidades, foram divulgadas em reportagem, conforme informação divulgada pela BBC News Brasil.

Alianças locais e método de expansão

A entrada do TCP no Ceará ocorreu por meio da aliança com a facção local Guardiões do Estado, o GDE, replicando um expediente já visto em processos de nacionalização do crime organizado, segundo especialistas.

Como explica Carolina Grillo, coordenadora do Geni/UFF, “Esse é o movimento padrão de expansão das facções criminosas, que é de incorporação dos grupos locais”.

Investigações apontam que lideranças do GDE migraram para o Rio de Janeiro, onde tiveram contato com dirigentes do TCP e passaram a costurar a aliança, e, nas palavras do delegado Márcio Gutiérrez, “A gente tem informações de inteligência que precisa manter sob sigilo, mas essas lideranças têm papel fundamental. São as pessoas que orientam e que determinam como aquele grupo criminoso vai atuar, as cooperações e as novas formas de financiamento”.

Práticas criminosas, semelhança com milícias e disputa com o Comando Vermelho

O TCP não se limita ao uso de símbolos religiosos, ele reproduz modalidades de crime associadas a milícias, como a cobrança de pedágio a comerciantes, e disputa com o Comando Vermelho, antiga rival, por territórios no Rio de Janeiro.

O grupo utiliza armamento pesado, artefatos explosivos e até drones em confrontos, e o antagonismo com o CV é, para pesquisadores, um motor da expansão e da violência.

Em ações de extorsão identificadas no Ceará, três suspeitos foram presos em flagrante em Maracanaú após tomarem de vendedores ambulantes máquinas de registro de apostas e exigirem porcentagem do faturamento, exemplificando a tentativa de replicar práticas de milícia.

Impactos no Ceará, estatísticas e episódios de violência

No passado, a disputa entre GDE e CV transformou a região metropolitana de Fortaleza na área com maior taxa de homicídios do país, de 86,7 para cada 100 mil habitantes, e em janeiro de 2018 membros do GDE invadiram uma festa e mataram 14 pessoas, a maior chacina do Estado.

Apesar de uma redução recente nas taxas, cidades cearenses seguem entre as mais violentas do país, com Maranguape em primeiro lugar, com 79,9 por 100 mil, e Maracanaú em nono, com 68,5 por 100 mil, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública citados nas apurações.

O avanço do TCP no Estado já provocou fechamento temporário de escolas, e um vilarejo em Morada Nova virou uma “cidade-fantasma” depois que moradores foram forçados a deixar suas casas em meio a confrontos entre facções.

Religião, identidade e recrutamento

A facção usa retórica religiosa para legitimar confrontos, e pesquisadores observam que discursos, símbolos e ritos foram incorporados à conduta do grupo.

Kristina Hinz, da Uerj, afirma que “Notavelmente, as facções narcopentecostais se utilizam do discurso religioso para legitimar a expansão dos seus territórios e nos confrontos com outras facções”.

Essa convergência entre fé e crime ganha adesão porque o neopentecostalismo cresceu entre a população, e dados do censo prisional do Ceará mostram que 43,2% dos quase 20 mil presos eram evangélicos. Outros 33% eram católicos, o que pode tornar o discurso do TCP atraente para recrutar novos adeptos.

O desafio das autoridades e o temor das comunidades

Desde setembro, a Polícia Civil monitora “as consequências e desdobramentos dessa aliança”, e, nas palavras do delegado-geral, “Temos feito diversas capturas e compreendido o método [de atuação da facção]”.

Para o coordenador do LEV/UFC, Luiz Fábio Silva Paiva, “Eu acho que sempre há risco”, e a escalada de violência dependerá da movimentação entre os grupos e da atuação do Estado.

Moradores relatam medo e silêncio, e, como diz Reginaldo Silva, gerente da ONG Visão Mundial, “Todos preferem o silêncio porque têm medo de perder a vida”. A entrada do TCP em novas áreas eleva o risco de mais confrontos e, possivelmente, de aumento de homicídios, um cenário que preocupa autoridades e comunidades.

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