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sábado, junho 27, 2026

El Niño: Ufal monitora fenômeno e seus potenciais impactos nas chuvas e temperaturas de Alagoas

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Ufal acompanha El Niño e seus possíveis reflexos no regime de chuvas e temperaturas em Alagoas

O recente alerta da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) sobre o estabelecimento do El Niño acendeu um sinal de atenção para pesquisadores e órgãos de monitoramento climático. Em Alagoas, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por meio do Sistema de Radar Meteorológico de Alagoas (Sirmal), está acompanhando de perto a evolução do fenômeno e seus potenciais reflexos sobre o regime de chuvas, as temperaturas e a disponibilidade hídrica no estado.

Coordenado pela professora Luciene Melo, do Instituto de Ciências Atmosféricas (Icat), o Radar Meteorológico da Ufal é uma ferramenta estratégica. Ele permite observar em tempo real os sistemas precipitantes que atuam sobre Alagoas e arredores, fornecendo dados cruciais para previsão, defesa civil, gestão de recursos hídricos e de riscos.

A professora Luciene Melo ressalta que o alerta da NOAA é tecnicamente robusto. O índice Niño 3.4 atingiu +0,7°C em junho, caracterizando o fenômeno. A agência projeta uma chance de 63% de um evento muito forte entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os mais intensos desde 1950. A probabilidade de permanência do El Niño nos próximos trimestres é altíssima, beirando os 99%.

El Niño: um fenômeno global com impactos locais em Alagoas

Apesar da origem do El Niño no Oceano Pacífico Equatorial, seus efeitos em Alagoas são sentidos de forma indireta. O fenômeno não atua diretamente sobre o Nordeste, mas por meio de um mecanismo de teleconexão atmosférica. O aquecimento das águas do Pacífico altera gradientes de pressão e reorganiza a circulação tropical em larga escala.

Essas mudanças globais interferem no comportamento das chuvas em diversas partes do planeta. No entanto, os impactos em Alagoas são modulados por outros fatores climáticos, especialmente as condições térmicas do Oceano Atlântico Tropical. A interação entre o Pacífico, o Atlântico e os sistemas meteorológicos regionais determina a intensidade dos efeitos.

O Nordeste e a histórica redução das chuvas sob influência do El Niño

Historicamente, episódios de El Niño estão associados à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. O fenômeno tende a inibir a formação de nuvens profundas, favorecendo estiagens prolongadas, queda na disponibilidade hídrica e maior suscetibilidade a queimadas.

No Nordeste, a preocupação recai sobre a Quadra Chuvosa (março a junho), período crucial para a recarga de açudes e do solo no Semiárido. Chuvas abaixo da média nessa fase podem comprometer a agricultura, o abastecimento humano, a pecuária e a segurança alimentar por meses.

“Safras de milho, feijão e algodão são as mais afetadas, com reflexos diretos na segurança alimentar. Para Alagoas, as chuvas normalmente ficam abaixo da média e as temperaturas mais altas que a média climatológica”, afirma Luciene Melo.

Variações regionais dos impactos do El Niño em Alagoas

Os efeitos do El Niño em Alagoas não são uniformes. O Litoral e a Zona da Mata, influenciados pelo regime de chuvas do Leste e pela brisa marítima, apresentam maior resiliência. O Agreste, com estações chuvosas mais curtas e irregulares, demonstra vulnerabilidade intermediária.

O Sertão alagoano é a região mais exposta aos impactos, dependendo quase exclusivamente da Quadra Chuvosa e do posicionamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). O El Niño, ao deslocar a ZCIT para norte e inibir a convecção, agrava a seca nessa sub-região.

Contudo, a professora reforça que o Atlântico pode amenizar ou intensificar esse quadro. Se o Atlântico Sul estiver mais quente, a ZCIT se posicionaria mais ao sul, diminuindo o impacto da redução de chuvas. Quanto à temperatura, sob influência do El Niño, ela tende a ficar acima da média climatológica.

A preocupação com a não reposição hídrica nos próximos meses

Com o período mais chuvoso de Alagoas já passado, a preocupação imediata não é uma seca abrupta, mas a falta de reposição hídrica. Entre julho e dezembro, o estado entra em um período naturalmente menos chuvoso. O fortalecimento do El Niño durante a primavera pode inibir o início precoce das chuvas na pré-estação, comprometendo o abastecimento e as condições hídricas para 2027.

O pico do fenômeno é esperado entre outubro de 2026 e março de 2027. Isso pode resultar em mais veranicos, e estes, mais prolongados. Períodos sem precipitação de chuva prejudicam o desenvolvimento de lavouras, reduzem a umidade do solo e aumentam a pressão sobre reservatórios e sistemas de abastecimento.

O papel do Radar Meteorológico da Ufal no monitoramento em tempo real

O Sirmal opera em banda S e cobre um raio de aproximadamente 400 km a partir de Maceió, com cerca de 250 km de área de dados quantitativos. O radar permite identificar mudanças na frequência, organização e intensidade dos sistemas convectivos, como a redução de Distúrbios Ondulatórios de Leste e o enfraquecimento de sistemas frontais.

Embora atue no monitoramento de curto prazo, os padrões registrados em tempo real são comparados com climatologias de referência. Isso fornece evidências observacionais locais sobre como o El Niño está modulando o regime de precipitação em Alagoas. As informações geradas são essenciais para a gestão de recursos hídricos, alimentando modelos hidrológicos e orientando a operação de açudes e reservatórios.

Na defesa civil, os dados auxiliam no suporte a decisões operacionais, mesmo em anos mais secos, ante eventos convectivos severos localizados com risco de alagamentos e deslizamentos. Para o monitoramento da estiagem, as informações subsidiam decretos de emergência e o acionamento de programas como o Garantia Safra.

A parceria Sirmal-Cemaden integra dados locais a redes nacionais de monitoramento e alerta. Convênios com a Semarh e a Defesa Civil municipal otimizam o uso dos dados para previsão e monitoramento de eventos de curto prazo. Além disso, o Radar Meteorológico da Ufal serve como laboratório para a formação de estudantes e pesquisadores em meteorologia operacional.

Matéria produzida pela redação jornalística especializada do portal, com base em fontes verificadas e dados oficiais.

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