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Influenciadora feminista ensina manutenção básica a mulheres e pessoas não binárias, destaca dependência criada pela divisão sexual do trabalho e aposta no humor para dialogar
A influenciadora feminista Jaqueline Pinheiro, a Jaque Conserta, percorre cidades com oficinas de manutenção básica, voltadas a mulheres e pessoas não binárias, e já soma mais de 111 mil seguidores no Instagram.
Unindo empreendedorismo social e ativismo, ela ensina reparos domésticos e discute gênero com vídeos que viralizam. “Eu não trabalho com ódio”, diz, ao explicar por que usa o riso para furar bolhas online.
Em aulas e entrevistas, Jaque reforça que a divisão sexual do trabalho mantém dependências e desigualdades, e que autonomia técnica protege mulheres de abusos, conforme entrevista publicada pela Agência Brasil.
Oficinas que viram autonomia e cidadania
A história com ferramentas vem da infância. “Eu passei boa parte da minha infância dentro de uma loja de materiais de construção”, conta. “Os elementos [equipamentos, ferramentas e peças] acabaram entrando no meu universo”.
Ao criar a persona Jaque Conserta, ela uniu saber técnico e militância. “Esse trabalho foi a forma que encontrei de aliar a minha militância e a minha geração de renda”, afirma. “Meu trabalho é ajudar os processos de autonomia das mulheres”.
As oficinas ensinam elétrica básica, uso de furadeira e pequenos reparos, com linguagem simples e prática. O objetivo é que cada aluna saia com confiança para resolver o que antes dependia da contratação de terceiros.
Segundo Jaque, o ganho vai além da técnica. A aula vira espaço de troca, acolhimento e rede. O efeito é direto na autoestima e na segurança, o que reduz riscos financeiros e emocionais em situações cotidianas de manutenção do lar.
O conteúdo também desmonta o medo de errar. A proposta é treinar, aprender e repetir. Ao dominar o básico, as alunas passam a negociar orçamentos de forma mais informada e a evitar a velha “rebimboca da parafuseta”.
Divisão sexual do trabalho e educação de meninos e meninas
A divisão sexual do trabalho ainda organiza hábitos e expectativas. “Desde cedo, meninos ganham ferramentas, e as meninas ganham panelinhas. Meninos são incentivados a desmontar as coisas, meninas são incentivadas a mantê-las limpas”.
Para ela, não é falta de capacidade, é cultura. Pais e escolas raramente oferecem ferramentas às meninas, o que cria a crença de que conserto e técnica não são para elas. Esse ciclo alimenta dependências e desigualdade.
Jaque defende que meninos também aprendam cuidado, tarefas domésticas e empatia. “Os trabalhos de cuidado são responsabilidades de todo mundo”, lembra, ao propor uma educação que promova corresponsabilidade e equilíbrio.
A mudança cultural pede desconforto e renúncia a privilégios. “Educar os meninos a identificarem quais são as situações em que já está posto automaticamente em uma posição de poder e aprender a abrir mão”, defende.
Ao repetir a expressão divisão sexual do trabalho como eixo do debate, a influenciadora reforça que o problema é estrutural, atravessa escolas, famílias e mercado, e requer políticas públicas e práticas diárias.
Dependência, segurança e como evitar abusos em serviços
A falta de habilidade básica cria brechas. “Demais. Quando você não domina habilidades básicas de reparo, você fica dependente”, afirma. A dependência abre espaço para controle e abuso em relações e contratações.
Nos atendimentos, alunas relatam intimidações, valores abusivos e invenção de defeitos. “São comuns os relatos de profissionais que ultrapassam limites, assediam, intimidam”, diz. A autonomia feminina reduz riscos.
A presença de um manual pessoal de ferramentas e noções de orçamento protege o bolso e a privacidade. Conhecer peças e processos diminui a chance de fraudes, além de facilitar o diálogo com prestadores confiáveis.
Para Jaque, cada curso reduz uma camada de vulnerabilidade. Ao saber usar uma furadeira ou identificar um curto simples, a mulher escolhe com quem contratar, questiona orçamentos e se sente mais segura em casa.
A divisão sexual do trabalho também pesa no psicológico. Sem o domínio do básico, surge a ideia de incapacidade. As oficinas rompem esse mito e criam referências positivas para meninas e mulheres da comunidade.
Humor, machulência, redes sociais e política
O humor é parte do método. “Duas coisas rompem bolhas nas redes sociais, o ódio e o humor. Eu não trabalho com ódio”, afirma. Ao rir do absurdo, ela expõe a cultura machista e convida mais gente ao debate.
Ela comenta vídeos de homens em situações hilárias e constrangedoras, o que chama de machulência. “Eu não preciso nem procurar”, diz sobre o algoritmo que já entrega conteúdos que viram pauta de reflexão.
Sobre o termo, ela explica. “Não fui eu que inventei essa palavra, eu acho que criei mais o conceito”. “É o padrão de comportamento do macho alfa, do homem que não desenvolve inteligência emocional, que converte qualquer sentimento em agressividade”.
O canal atraiu também homens que repensam atitudes. Muitos relatam que passaram a reconhecer comportamentos e evitar repetições. Mães de meninos agradecem pelo conteúdo, que vira ferramenta de educação cidadã.
No campo institucional, Jaque cobra presença feminina nas decisões. Ela lembra o dado, “Dos 513 deputados federais, só 91 são mulheres”. E reforça, “A gente precisa de mais mulher entrando na política, não só votando”.
A pauta de igualdade inclui ampliar lideranças e assegurar segurança e renda. Para isso, ela aposta em formação técnica, debate público e redes de apoio, sempre conectando autonomia e divisão sexual do trabalho.