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Encerramento da Cúpula dos Povos teve banquetaço, carta a André Corrêa do Lago, críticas ao capitalismo, defesa do fim dos fósseis e chamada por maior participação popular
A Cúpula dos Povos terminou neste domingo, 16, em Belém, com um apelo firme de Cacique Raoni Metuktire para que a mobilização continue. O líder reforçou que alerta o mundo há décadas para a destruição ambiental e a violência contra povos originários.
O ato final reuniu um banquetaço na Praça da República, com comida feita por cozinhas comunitárias, e uma celebração cultural aberta. No palco, foi lida a carta final, que critica as chamadas falsas soluções para a emergência climática.
O documento foi entregue ao presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, que prometeu levar as propostas às reuniões de alto nível a partir de segunda, 17, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil.
A voz de Cacique Raoni e o chamado à continuidade da luta
Em mensagem de encerramento da Cúpula dos Povos, Raoni reafirmou sua trajetória de alerta. “Há muito tempo, eu vinha alertando sobre o problema que, hoje, nós estamos passando, de mudanças climáticas, de guerras”, disse.
O líder indígena pediu união em defesa da vida. “Mais uma vez, peço a todos que possamos dar continuidade a essa missão de poder defender a vida da Terra, do planeta. Eu quero que tenhamos essa continuidade de luta, para que possamos lutar contra aqueles que querem o mal, que querem destruir a nossa terra”.
Ele condenou conflitos e cobrou respeito. “Há muito tempo, eu venho falando para que possamos ter respeito um com o outro e possamos viver em paz nessa terra”. O chamado ecoou entre movimentos sociais e povos tradicionais.
Carta final, falsas soluções e protagonismo dos povos
A carta da Cúpula dos Povos denuncia falsas soluções climáticas e afirma um horizonte de alianças. “Nossa visão de mundo está orientada pelo internacionalismo popular, com intercâmbios de conhecimentos e saberes, que constroem laços de solidariedade, lutas e de cooperação entre nossos povos”.
O texto valoriza práticas de base nos territórios. “As verdadeiras soluções são fortalecidas por esta troca de experiências, desenvolvidas em nossos territórios e por muitas mãos. Temos o compromisso de estimular, convocar e fortalecer essas construções”.
O documento defende o cuidado e o papel central das mulheres. “Não há vida sem natureza. Não há vida sem a ética e o trabalho de cuidado. Por isso, o feminismo é parte central do nosso projeto político”.
O apelo por participação é direto. “Cobramos que haja participação e protagonismo dos povos na construção de soluções climáticas, reconhecendo os saberes ancestrais”. A Cúpula dos Povos reforça a pluralidade e a cosmovisão dos povos.
Capitalismo, fósseis, guerras e defesa de direitos
O texto vincula o agravamento da crise climática ao modo de produção capitalista e ao racismo ambiental. Aponta transnacionais de mineração, energia, armas, agronegócio e Big Techs como centrais na catástrofe climática.
Entre as pautas, a carta pede demarcação de terras indígenas, reforma agrária, fomento à agroecologia, fim dos combustíveis fósseis e financiamento público para transição justa, com taxação de corporações e grandes fortunas.
Há repúdio a guerras e à escalada autoritária global. Sobre a Palestina, registra, “Nosso repúdio total ao genocídio praticado contra a Palestina. Nosso apoio e abraço solidário ao povo que bravamente resiste, e ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS)”.
O documento critica ações militares dos Estados Unidos no Caribe e denuncia ameaças à soberania. “O imperialismo segue ameaçando a soberania dos povos, criminalizando movimentos sociais e legitimando intervenções”.
Belém mobilizada, barqueata, marcha e próximos passos na COP30
A Cúpula dos Povos reuniu cerca de 70 mil pessoas ao longo de cinco dias. Estiveram presentes movimentos locais, nacionais e internacionais, povos originários e tradicionais, e representantes de periferias e florestas.
Participaram cerca de 1,3 mil organizações e movimentos. As críticas miram a falta de ambição na COP30 e o risco à meta de 1,5°C do Acordo de Paris, com soluções consideradas ineficientes por países ricos.
Na abertura, uma barqueata tomou a Baía do Guajará em defesa da Amazônia e dos povos tradicionais. A carta valorizou a força espiritual e os encantados na orientação das lutas pela vida e pela memória.
Ontem, a Marcha Mundial pelo Clima levou cerca de 70 mil às ruas de Belém, com diversidade cultural e social do povo amazônico. A agenda da Cúpula dos Povos agora segue para a mesa da COP30, que recebeu o documento.
O encerramento com banquetaço no centro da capital paraense reforçou o caráter popular do encontro. A proposta central, segundo a carta, é colocar a reprodução da vida no centro, acima da lógica de lucro e acumulação privada.
Com a entrega formal a André Corrêa do Lago, as demandas da Cúpula dos Povos entram no debate de alto nível da COP30. Os movimentos cobram que a voz dos povos oriente decisões e que a transição justa seja de fato financiada.