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quarta-feira, junho 3, 2026

Horta Comunitária no Salgueiro: Memórias, Cuidado e Cidadania Florescem em Favela Carioca

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Moradores do Morro do Salgueiro transformam área de risco em oásis verde, cultivando tradição, saúde e união comunitária

No coração do Morro do Salgueiro, na zona norte do Rio de Janeiro, uma horta comunitária floresce, transformando um antigo local de risco em um vibrante centro de memória, cuidado e cidadania. Comandada pelo Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, a iniciativa resgata saberes ancestrais sobre plantas medicinais e comestíveis, além de promover a segurança alimentar e a inclusão social na comunidade.

Desde 2019, o grupo se dedica a catalogar espécies e conhecimentos tradicionais, mantendo vivas plantas que muitos moradores conhecem por suas avós, mas que se tornaram raras no asfalto. A horta, que faz parte do programa Hortas Cariocas da Prefeitura do Rio, não só complementa a renda de seus integrantes, mas também nutre o corpo e a alma da comunidade, combatendo a falta de espaço e o acesso limitado a alimentos frescos e saudáveis.

Essa iniciativa exemplifica como o cuidado com a terra pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social e cultural. A produção local, que em 2025 atingiu 74 toneladas em 84 hortas mantidas pela prefeitura, no Salgueiro gerou 700 kg, demonstrando o impacto significativo dessas áreas verdes. Conforme informação divulgada pela Secretaria de Ambiente e Clima, o suporte técnico e o fornecimento de sementes são contínuos, garantindo a vitalidade e a expansão do projeto.

Memórias que germinam: O resgate de saberes ancestrais

Vera Lúcia Silva de Souza, de 74 anos, conhecida como Tia Vera, é uma das integrantes mais antigas do coletivo. Sua rotina matinal começa cedo, descendo as íngremes ladeiras do Salgueiro para cuidar das plantas na horta comunitária. Para ela, o plantio é um resgate de suas memórias de infância, quando sua mãe e avó preparavam remédios caseiros com ervas. “Eu me lembro bem”, afirma Tia Vera, sobre aprender a plantar, fazer chás e xaropes com as receitas passadas de geração em geração.

A área de plantio, localizada nas franjas do Parque Nacional da Tijuca, beneficia-se de um clima mais ameno. Tia Vera cultiva em casa espécies como saião, alfavaca e ora-pro-nóbis, compartilhando mudas com vizinhos que não têm espaço para plantar. “Meu boldo, por exemplo, já está quase acabando. As casas aqui são apertadinhas, nem todo mundo em espaço”, revela, ressaltando a importância da horta comunitária para a **diversidade de opções** alimentares.

Um cardápio de sabedoria popular e saúde

Marcelo Rocha, também membro do coletivo, destaca a perda de diversidade alimentar no mercado, contrastando com a riqueza de plantas comestíveis conhecidas por gerações anteriores. “Temos uma infinidade de plantas comestíveis conhecidas da minha avó, da minha bisavó, como ora-pro-nóbis, caruru, alemirão, taioba serralha”, cita.

A horta do Salgueiro, sem placa visível, é um tesouro conhecido pelos moradores. Além de suprir as necessidades do coletivo, a produção é **doada para a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias**. Walace Gonçalves de Oliveira, 66 anos, o Tio Dadá, explica que até profissionais de saúde indicam as ervas e alimentos da horta: “Tem gente que precisa especificamente de uma verdura ou legume. Aí, o pessoal do postinho manda vir buscar aqui conosco”.

Da remoção à revitalização: Transformando riscos em oportunidades

O terreno onde hoje prospera a horta comunitária era, antes, uma área de risco que exigiu a remoção de diversas casas. A comunidade, com o apoio do programa Hortas Cariocas, transformou esse espaço, antes cheio de lixo, em um local produtivo. “A gente tem aqui berinjela, alface, chicória, cenoura. Temos bastante coisa”, conta Tio Dadá, que também ressalta a presença de limão e a rara laranja sanguínea.

A iniciativa vai além do cultivo de alimentos. Segundo a prefeitura, as hortas urbanas **reduzem a ocupação irregular de terrenos ociosos** e elevam os níveis de inclusão social, oferecendo aos moradores alimentação livre de transgênicos e agrotóxicos. O suporte técnico da Secretaria de Ambiente e Clima é contínuo, com a entrega ininterrupta de sementes, fortalecendo o compromisso com a **alimentação e cidadania**.

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