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O registro das tacacazeiras no Livro dos Saberes abre caminho para políticas públicas que valorizam o tacacá, a economia informal feminina e a preservação do saber amazônico
Tacacá é um hábito do fim de tarde na região amazônica, servido na cuia, feito com goma de mandioca, tucupi, camarão seco e jambu, a planta do tremor, preparado por mulheres conhecidas como tacacazeiras.
As receitas costumam ser segredos de família, com variações no equilíbrio entre alcalinidade da goma e acidez do tucupi, além de temperos locais, e a venda do prato é fonte de sustento para muitas cozinheiras.
conforme informação divulgada pelo Iphan.
O que muda com o reconhecimento
Segundo o dossiê que fundamentou a inscrição, agora cabe ao Iphan a elaboração de um plano de salvaguarda para esse bem, com medidas práticas para proteger o ofício e ampliar sua visibilidade.
O documento prevê ações como formas de divulgação gastronômica, gestão dos pequenos negócios, acesso a matérias primas e melhoria dos pontos de venda, visando garantir que a prática continue viva e gere renda.
Vozes das tacacazeiras
Maria de Nazaré, conhecida como tia Naza, resume a relação entre ofício e família, “O tacacá sempre existiu na minha vida, eu vendia no fim da tarde, depois do trabalho, em frente de casa. Formei dois netos advogados, dois médicos e um jornalista”.
Em Brasília, ela comemorou a decisão do Iphan, afirmando, “Ser tacacazeira é ter orgulho dos nossos ingredientes únicos. A culinária amazônica é viva, potente e merece ser celebrada”.
A feirante Jaqueline Soares Fonseca também destacou o valor da tradição, “Há quem diga que, se não for na cuia, não tem o mesmo sabor e eu sou uma delas, prefiro ir na banca, em uma das esquinas de Belém, onde estão os mais tradicionais, e experimentar”.
Pesquisa, documentação e apoio institucional
O reconhecimento foi apoiado por um projeto de pesquisa e documentação realizado em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará, Ufopa, que visitou sete estados para registrar o preparo, a compra dos ingredientes e a comercialização.
O dossiê descreve as tacacazeiras como “detentoras de saberes e segredos” e diz que elas dão continuidade, “não apenas aos modos de fazer de um elaborado prato, mas a formas de sociabilidade”, mantendo um “conhecimento exclusivo”.
O senador Jader Barbalho comemorou a decisão, afirmando, “O tacacá é muito mais do que um prato. É o sabor do Pará servido em cuia”, ressaltando o valor simbólico do reconhecimento.
Tacacá hoje, entre tradição e inovação
O mercado do tacacá evoluiu, com variações que incluem caranguejo, pipoca e versões veganas, e com a chegada de aplicativos que entregam o prato em qualquer lugar.
Para as tacacazeiras, o desafio agora é preservar o modo tradicional de preparo e ao mesmo tempo garantir acesso a matérias-primas, melhor gestão dos pontos de venda e condições para que a atividade continue gerando emprego e identidade cultural.