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quinta-feira, junho 4, 2026

Mercúrio no Corpo: Gestantes e Bebês Munduruku em Risco Crítico na Amazônia

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Mercúrio no Corpo: Gestantes e Bebês Munduruku em Risco Crítico na Amazônia

Mulheres grávidas da Terra Indígena Munduruku, no Pará, apresentam níveis de mercúrio no corpo quatro vezes e meio acima do limite considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A média encontrada é de 9,1 microgramas por grama de cabelo (µg/g), enquanto o ideal seria não ultrapassar 2 µg/g.

Os dados alarmantes fazem parte de um estudo preliminar da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) sobre a exposição de gestantes e recém-nascidos indígenas ao mercúrio na Amazônia. Os resultados foram apresentados recentemente durante a Rio Nature & Climate Week.

De 195 mulheres monitoradas, impressionantes 97% possuem mercúrio em níveis superiores ao seguro. Em um dos casos mais extremos, uma mulher apresentou 39,9 µg/g, o que representa 20 vezes o limite tolerável. A situação é ainda mais preocupante quando se trata dos bebês. Cerca de 90% deles já nascem contaminados, com média de 5,8 µg/g, o triplo do recomendado.

Impacto Devastador no Neurodesenvolvimento Infantil

A exposição ao mercúrio durante a gestação é particularmente perigosa, pois o metal atravessa a placenta e afeta diretamente o desenvolvimento do sistema nervoso central do feto. O coordenador da pesquisa, Paulo Basta, explica que o mercúrio se converte em uma neurotoxina com efeitos irreversíveis.

“Uma lesão que ocorre no sistema nervoso central é uma lesão irreversível. As pessoas vão ter que lidar com esse problema para sempre”, alerta Basta. Ele aponta para um aumento de casos de crianças nascendo com doenças neurológicas raras, síndromes e anomalias congênitas, muitas delas suspeitas de estarem ligadas à contaminação.

O pesquisador também destacou que o distrito sanitário especial indígena Rio Tapajós foi a unidade de saúde que mais demandou cadeiras de rodas para o Ministério da Saúde, um indicativo preocupante dos impactos físicos e neurológicos na população local.

Garimpo Ilegal: A Raiz da Contaminação

A principal causa da contaminação por mercúrio na região é o garimpo ilegal de ouro, uma atividade que assola a Terra Indígena Munduruku há décadas. O mercúrio é utilizado no processo de separação do ouro, contaminando rios e a cadeia alimentar.

Para o povo Munduruku, o peixe é a base de sua alimentação, tornando impossível evitar o consumo do metal. “Nossa principal fonte de alimento é o peixe e não há como fugir disso”, lamenta Alessandra Korap Munduruku, liderança indígena. Ela expressa a dor e a revolta de ver seu povo adoecer sem ter para onde ir ou outras opções de subsistência.

Alessandra questiona o modelo de progresso que destrói o meio ambiente e expulsa os povos tradicionais. “É como se nós não existíssemos. Que progresso é esse que mata rios, florestas e expulsa os povos?”, indaga.

A Urgência de Dados Oficiais e Ações Concretas

Paulo Basta ressalta a importância de os dados coletados se tornarem estatísticas oficiais no Brasil, uma lacuna que tem dificultado o enfrentamento do problema. Atualmente, não existe uma ficha de notificação específica para contaminação por mercúrio nos sistemas de saúde.

Apesar das limitações, já foram identificados 751 casos confirmados de indígenas contaminados por mercúrio, sendo 318 no Pará e 378 em Roraima, ligados ao povo Yanomami. A promotora do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), Eliane Moreira, reforça a responsabilidade dos entes públicos na fragilidade do licenciamento e na falta de fiscalização, que criam um ambiente propício para essa tragédia socioambiental.

Matéria produzida pela redação jornalística especializada do portal, com base em fontes verificadas e dados oficiais.

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