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Mostra contrapõe as litografias de Jean-Baptiste Debret e releituras contemporâneas, questiona narrativas sobre escravidão, violência e memória, e traz obras inéditas
A exposição Debret em questão, aberta ao público no Museu do Ipiranga em São Paulo, propõe um diálogo entre as pranchas do Brasil Império e obras contemporâneas que revisitam esse legado.
A mostra reúne 35 pranchas litográficas do livro Voyage pittoresque et historique au Brésil, impressas em Paris entre 1834 e 1839, e releituras de 20 artistas brasileiros.
O objetivo é problematizar a representação da escravidão e da violência na formação do país, e trazer novas leituras a partir de artistas contemporâneos, conforme informação divulgada pelo g1.
O acervo e o olhar de Debret
Debret esteve no Brasil entre 1816 e 1831, integrando a Missão Artística Francesa, e documentou a transformação da colônia portuguesa no Império, em especial a vida no Rio de Janeiro.
Na seleção exibida, destacam-se imagens que recusam a representação idílica do país, com atenção ao cotidiano, ao trabalho e à violência social.
O curador Jacques Leenhardt sintetiza essa perspectiva, ao afirmar, “Como se constrói uma nação é tema fundamental do livro. [Tem] a parte central sobre a vida no Rio de Janeiro, que fundamentalmente é uma vida com os escravos. Debret sempre lembra isso: o português não trabalha, não quer trabalhar, não gosta do trabalho”.
Nas pranchas, o escravo aparece como figura central, ocupando os ofícios e o cotidiano urbano e rural, o que, segundo a curadoria, expõe uma sociedade bipartida e marcas de violência.
Releituras contemporâneas e obras inéditas
A segunda parte da mostra reúne trabalhos de 20 artistas que retomam as imagens de Debret para interrogar narrativas hegemônicas e as permanências da escravidão na sociedade brasileira.
Há uma diversidade de linguagens, “Tem fotografia, vídeo, instalação, colagem digital, pintura, gravura. É uma grande variedade de suporte e de linguagens, e também uma variedade de tom discursivo, que para gente é mais interessante ainda”, afirmou a curadora Gabriela Longman.
Entre as novidades, duas obras inéditas chamam a atenção, Paraíso Tropical, de Rosana Paulino, que revisita a ideia do Brasil como paraíso idílico para expor seu caráter extrativista, e Brasil através do espelho, de Jaime Lauriano, que aborda etnocídio, apropriação cultural e a noção de democracia racial.
Lauriano também apresenta a série Justiça e Barbárie, composta por oito fotografias que reutilizam títulos de Debret para tensionar passado e presente, e interpelar práticas contemporâneas de violência, inclusive aquelas que circulam na mídia.
Memória, ensino e circulação das imagens
O diretor do Museu do Ipiranga, Paulo Garcez Marins, destacou que as últimas exposições do museu buscam interpretar o passado a partir das perguntas do presente.
Ele afirma, “Essa é, afinal, a característica do pensamento histórico, uma operação intelectual e cognitiva sobre o passado. É o que procuramos fazer ao abordar, por diferentes caminhos, as formas de violência e resistência que moldaram o Brasil”.
As imagens de Debret circularam amplamente em livros didáticos, publicações e objetos cotidianos, e chegaram a ganhar usos descontextualizados, o que, segundo a curadoria, contribuiu para uma visão nostálgica dos tempos da escravidão.
Os artistas contemporâneos exibidos retomam justamente essa tensão entre memória e descontextualização, apontando permanências de racismo e violência na sociedade brasileira, e exigindo novas leituras sobre o passado.
Visitação e programação
A exposição Debret em questão fica em cartaz até 17 de maio do próximo ano, no Museu do Ipiranga, em São Paulo, com visitação de terça a domingo, das 10h às 17h.
Além das obras citadas, a mostra reúne trabalhos de Gê Viana, Dalton Paula, Isabel Löfgren & Patricia Goùvea, Anna Bella Geiger, Bruno Weilemann, Cássio Vasconcellos e outros, e inclui um registro do desfile do Salgueiro para o carnaval de 1959, fotografado por Marcel Gautherot.
O conjunto pretende provocar reflexão sobre como imagens do passado informam percepções contemporâneas, e como a arte pode redesenhar memórias e narrativas históricas.