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Pesquisa com 3.954 pessoas do tráfico de drogas, em favelas de 23 estados, revela impacto da educação na renda e na saúde mental entre agosto e setembro de 2025
A exclusão escolar aparece como marca da vida no tráfico de drogas, metade dos entrevistados não alcançou o ensino médio, o que limita empregos e renda estável.
O estudo ouviu 3.954 pessoas em locais de atividade criminosa, com entrevistas presenciais em favelas de 23 estados, entre 15 de agosto e 20 de setembro de 2025.
Os resultados compõem a Pesquisa Raio-X da Vida Real, do Data Favela, e conectam educação, trabalho e saúde mental, segundo apresentação em coletiva.
Educação e trajetórias
A escolaridade é decisiva no tráfico de drogas, metade não chega ao ensino médio e 41% disseram que, olhando para trás, teriam estudado ou se formado.
Para Marcus Vinícius Athaye, a educação é ponto de virada, “Além da importância da renda e de programas de empregabilidade dessas pessoas, elas reconhecem que o estudo teria sido o fator de mudança na sua vida. Elas teriam estudado mais e se formado no seu passado”.
Ele defende soluções integradas, “Programas e incentivos trabalhistas precisam vir aliados à Educação, principalmente, aliados aos tão jovens que já se arrependem de não ter estudado”.
O desejo por ensino superior também aparece forte, Direito seria a escolha de 18%, Administração 13%, Medicina ou Enfermagem 11%, Engenharia ou Arquitetura 11%, Jornalismo ou Publicidade 7%.
Renda e mercado de trabalho
A pesquisa aponta que a falta de acesso à educação e a oportunidades de qualidade empurra para a baixa renda, entre 6 ou 7 em cada 10 não ganham acima de dois salários mínimos.
O nexo entre estudo e renda aparece em diferentes respostas, os entrevistados associam qualificação a chance de sair do tráfico de drogas e de alcançar trabalho formal e estável.
Athaye reforça a combinação de políticas, empregabilidade, renda e escola precisam caminhar juntas para romper o ciclo de exclusão que atinge o ensino médio e a renda.
Família e sonhos de consumo
Os arranjos familiares mostram diversidade, 35% foram criados em famílias tradicionais, 38% em famílias monoparentais, destas, 79% lideradas pelas mães, como indica o Censo IBGE 2022.
As pessoas mais importantes são a mãe, 43%, os filhos, 22%, a avó, 7%, e o pai, 7%, ainda, 4% disseram não ter ninguém importante, e 6% não responderam.
O maior sonho de consumo é a casa própria, 28% querem ter uma casa, e 25% desejam comprar casa para a família, com destaque para 22 a 26 anos, 35%, 27 a 31 anos, 27%, e acima de 50 anos, 30%.
Para Cléo Santana, da Data Favela, o sonho é comum ao país, “O sonho da casa própria, o desejo de ter onde se instalar e para onde voltar, também é o principal sonho das pessoas que estão em situação de crime”.
Saúde mental e percepções
Os indicadores de saúde mental chamam atenção, entre os que sofrem de ansiedade, 70% ganham até um salário mínimo, e conforme sobe o nível de escolaridade, a ansiedade também cresce.
A evidência é clara, “A prova disso é que 72% daqueles que iniciaram o ensino superior, mas não o concluíram, sofrem com ansiedade”, registra o levantamento.
Entre os motivos de entrada no crime, surgem alcoolismo, drogas e violência doméstica, citados por 13%, somados à baixa remuneração e à ausência de políticas públicas.
Para Bruna Hasclepildes, a vida no crime reflete desigualdades históricas, “São estruturas que ainda se mantêm”, e o sentimento dominante é de rejeição, 68% não sentem orgulho do que fazem.
Ela resume a ambivalência, “Eles não sentem orgulho algum do que fazem. Essas pessoas não entram para este contexto porque querem, mas por necessidade”, completando, “Eles têm a consciência de que exercem uma atividade que não é legal”.
Ao listar problemas do Brasil, pobreza e desigualdades lideram com 42%, corrupção aparece com 33%, violência com 11%, falta de acesso à educação com 7%, e saúde com 4%.