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Aos 51 anos, Dona de Casa Supera Vergonha e Medo para Voltar a Estudar e se Tornar Poeta
Aos 51 anos, a dona de casa Maria Rodrigues, de Maceió, é a prova viva de que o desejo de aprender e crescer não tem idade. Longe da sala de aula por décadas, ela encontrou na Educação de Jovens, Adultos e Idosos (EJAI) um caminho de transformação pessoal e autoconhecimento.
O que antes era um sonho guardado, repleto de vergonha e insegurança, hoje se materializa em versos e em uma nova perspectiva de vida. Maria, inspirada pela poetisa Cora Coralina, não apenas voltou a estudar, mas descobriu uma vocação literária e o desejo de registrar sua própria história para as futuras gerações.
A decisão de Maria Rodrigues foi impulsionada pela amiga Cida Duarte, que a incentivou e a acompanhou até a Escola Municipal Doutora Nise da Silveira. Conforme relatado por Maria, a amiga foi fundamental para que ela superasse o receio inicial e fizesse a matrícula, mostrando que o apoio social é um poderoso motor para novas jornadas. A história de superação de Maria Rodrigues foi divulgada pela Secretaria Municipal de Educação.
Superando o Preconceito e o Medo de Não Acompanhar
O maior obstáculo para Maria não foi o conteúdo das aulas, mas o preconceito internalizado. Aos 50 anos, ela acreditava que já não era mais tempo para retornar aos estudos, temendo não conseguir acompanhar os colegas mais jovens e passar vergonha. “Eu dizia para mim mesma que já não tinha idade para estudar”, recorda.
No entanto, a realidade na EJAI foi surpreendente. Maria encontrou um ambiente de acolhimento e troca de experiências, onde a educação é vista como uma ferramenta de libertação e crescimento coletivo. A dedicação dos professores e gestores, participando ativamente das atividades, reforçou sua convicção sobre o poder transformador do conhecimento.
Da Timidez à Expressão Literária: A Descoberta da Poesia
Um marco na jornada de Maria foi a decisão de compartilhar um poema que escreveu, inspirado em Cora Coralina. Por anos, seus escritos eram mantidos em segredo, expressando sentimentos de tristeza sem nunca serem revelados. Após uma pesquisa sobre a vida da poetisa no projeto escolar, Maria compôs um novo poema.
Mesmo com o texto pronto, demorou três semanas para reunir coragem e mostrá-lo à professora. O medo de ser julgada foi dissipado pelo apoio incondicional da equipe escolar, que a incentivou e celebrou sua criação. “Aquilo me libertou”, afirma Maria, sentindo uma profunda transformação pessoal.
A Escola como Espaço de Recomeço e Empoderamento
Para a diretora da escola, Lucrécia Maria, a trajetória de Maria exemplifica o verdadeiro propósito da EJAI: oferecer uma modalidade de educação básica para quem não teve a oportunidade na idade certa. As turmas noturnas da Escola Municipal Doutora Nise da Silveira se tornaram um espaço de socialização e recomeço, alinhado com os ideais de Paulo Freire sobre o conhecimento emancipador.
A diretora destaca que acompanhar a evolução de alunos como Maria é uma das experiências mais gratificantes para a equipe pedagógica. “Ela se superou muito nesse tempo. Cada conversa, cada conquista mostra o quanto a educação pode fazer diferença”, pontua Lucrécia Maria.
Uma Nova Rotina e Novos Sonhos para o Futuro
Antes de retornar aos estudos, Maria passava grande parte do tempo em casa, sentindo-se vazia e com medo de cair em depressão. Hoje, sua rotina mudou drasticamente: “Eu venho para a escola e me sinto bem. Não tenho mais aquelas crises de ansiedade”. A convivência com professores e colegas trouxe a ela o que considera essencial: escuta e acolhimento.
Maria deixa um recado para quem hesita em voltar a estudar: “Vergonha não realiza sonhos”. Ela reconhece os desafios de conciliar trabalho, família e estudos, mas acredita que o esforço é recompensador. “O medo é normal, mas não pode ser maior que a nossa vontade de crescer. Estudar é como amor: não tem idade”, conclui.
Com objetivos claros, Maria deseja concluir seus estudos, obter seu diploma e, principalmente, escrever uma crônica sobre sua própria vida. “Quero deixar esse texto para meus netos e bisnetos lerem quando eu não estiver mais aqui”, planeja, esperando que sua história inspire outras pessoas a buscarem seus sonhos, independentemente da idade.