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quarta-feira, junho 3, 2026

Dia Mundial sem Tabaco: Vapes disfarçados em tecnologia viram desafio para combater vício em jovens

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Dia Mundial sem Tabaco: Vapes disfarçados em tecnologia viram desafio para combater vício em jovens

Novos dispositivos integrados a acessórios e com funções interativas ampliam o consumo de cigarros eletrônicos, alertam especialistas.

O uso de cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, tem crescido de forma alarmante entre os jovens no Brasil, impulsionado por tecnologias que camuflam esses dispositivos e os tornam quase imperceptíveis. A situação preocupa especialistas, que temem um aumento futuro nos casos de câncer e um retrocesso nas políticas de controle do tabagismo. A Fundação do Câncer alerta para o apelo da indústria em atrair uma nova geração para a dependência de nicotina.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) elegeu como tema para o Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio, a necessidade de “Desmascarar o apelo, combater a dependência de nicotina e tabaco”. No Brasil, a comercialização de vapes é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. Contudo, a facilidade de compra em redes sociais e no comércio informal tem impulsionado o seu uso.

Dados recentes da Receita Federal indicam a dimensão do problema: entre janeiro e fevereiro de 2026, mais de 238 mil unidades de cigarros eletrônicos foram apreendidas no país, uma média diária superior a 4 mil dispositivos. Essa realidade reforça a urgência de medidas eficazes para combater a circulação e o consumo desses produtos.

Inovações que camuflam o perigo

Os cigarros eletrônicos modernos têm se apresentado em formatos inovadores que dificultam sua identificação como produtos de tabaco. Muitos não emitem cheiro, utilizam aromatizantes ou produzem um vapor sutil, facilitando o vício precoce. A integração desses dispositivos em acessórios do cotidiano, como moletons com vaporizadores embutidos na peça, torna o consumo ainda mais discreto.

O diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, critica a engenhosidade por trás desses disfarces tecnológicos. “De uma maneira totalmente articulada, e muito mal articulada do ponto de vista da ética, criam até casaco com bocal escondido para a pessoa fumar”, afirma. Maltoni ressalta que esses artifícios visam especificamente atrair e viciar jovens, permitindo o uso em locais públicos como metrôs e escolas sem serem notados.

Essas inovações representam um sério risco de retrocesso para décadas de avanços no controle do tabaco no Brasil, que já foi referência mundial na redução do número de fumantes. “O que estamos vendo agora é um risco real de retrocesso, agora embalado em tecnologia e integrado ao cotidiano dos jovens”, alerta o cirurgião oncológico.

Campanha “Spoiler: ele não te ama” contra o vício

Em resposta a esse cenário, a Fundação do Câncer lançou a campanha “Spoiler: ele não te ama”, parte do Movimento Vape Off. A iniciativa utiliza um filme em formato de reportagem com depoimentos de jovens sobre relacionamentos abusivos para traçar um paralelo com o uso de vapes. A campanha busca desmistificar a imagem inofensiva que a indústria tenta projetar sobre esses cigarros, evidenciando seus reais malefícios.

A mensagem central é clara: alertar a juventude sobre a natureza enganosa da indústria do tabaco e incentivar a cessação do uso. “E sugere que quem nunca experimentou que não experimente para não viciar. E quem já está fumando que pare”, salienta Maltoni. A proposta é conscientizar sobre a dependência química e os riscos à saúde associados ao consumo de vapes.

Tecnologia e dependência digital: uma fusão preocupante

Os novos dispositivos de cigarros eletrônicos incorporam tecnologia de ponta, como telas sensíveis ao toque, jogos, música e sistemas de troca de mensagens, alinhando-se aos hábitos digitais dos jovens. Alguns modelos possuem sistemas que reagem à interrupção do uso, emitindo alertas sonoros e criando um ciclo contínuo de estímulo. Maltoni descreve esse fenômeno como a fusão entre dependência química e dependência digital.

“O vape deixa de ser apenas um dispositivo e passa a funcionar como um acessório interativo, integrado à rotina”, adverte o especialista. Essa integração torna a cessação do vício ainda mais complexa, pois a dependência vai além do aspecto químico, envolvendo também o comportamento e o uso de tecnologia.

Aumento alarmante no uso entre adolescentes

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 revelam um crescimento expressivo na experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos. A taxa evoluiu de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024, quase dobrando o número de jovens que já experimentaram ou utilizam esses dispositivos. “Isso é alarmante”, avalia o cirurgião oncológico.

A consultora da Fundação do Câncer, Milena Maciel de Carvalho, destaca que a exposição à nicotina na adolescência tem impactos profundos no desenvolvimento cerebral. Pode afetar áreas cruciais para atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos, além de aumentar a vulnerabilidade à dependência ao longo da vida. Os riscos respiratórios e cardiovasculares associados à inalação de substâncias tóxicas, como metais pesados, também são preocupantes.

Medidas de controle e o exemplo da Inglaterra

Luiz Augusto Maltoni defende a adoção de medidas rigorosas no Brasil para coibir a produção e o consumo de vapes, inspirando-se em ações internacionais. Ele cita o exemplo da Inglaterra, que, diante da crise de saúde pública causada por produtos de tabaco e cigarros eletrônicos, proibiu a venda de qualquer produto de tabaco para indivíduos nascidos após 1º de janeiro de 2009.

Além disso, o país ampliou restrições à publicidade, promoção e apelo desses produtos entre crianças e adolescentes. “Eu acho que a gente tem que caminhar nesse sentido”, defende Maltoni, ressaltando a importância de políticas públicas robustas para proteger as novas gerações dos malefícios do tabagismo, em suas diversas formas. A Fundação do Câncer continua sua atuação para conscientizar e combater a epidemia de vapes.

Matéria produzida pela redação jornalística especializada do portal, com base em fontes verificadas e dados oficiais.

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