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Doença de Chagas: Risco cardíaco em cirurgias dobra, aponta estudo do InCor
Pacientes com a Doença de Chagas apresentam um risco cardíaco significativamente maior ao serem submetidos a procedimentos cirúrgicos. Um estudo realizado no Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) revelou que o perigo de complicações e instabilidade clínica pode dobrar em comparação com outros grupos de pacientes.
A pesquisa, publicada na revista The Lancet Regional Health – Americas, analisou 378 cirurgias em 288 pacientes entre 2011 e 2020. Os resultados indicam que a natureza das intervenções cardíacas em portadores de Chagas é inerentemente mais complexa, o que eleva a probabilidade de desfechos negativos.
A dificuldade reside no acesso à camada externa do coração, conhecida como epicárdio. Para pacientes com Chagas, esse acesso é necessário em quase 80% dos casos. Em contraste, indivíduos com cardiopatia isquêmica, outra condição cardíaca comum, necessitam desse tipo de intervenção em apenas 15% das situações.
Complexidade cirúrgica e riscos elevados
A maior necessidade de intervenções no epicárdio em pacientes com Doença de Chagas está associada a um aumento considerável nos riscos durante e após a operação. Essa complexidade técnica pode levar a complicações intraoperatórias e instabilidade clínica, impactando diretamente as taxas de mortalidade.
Os pesquisadores destacaram que a natureza da intervenção cirúrgica para tratar manifestações cardíacas da Doença de Chagas exige maior tempo e habilidade, além de expor o paciente a mais riscos. Isso se deve, em parte, às alterações estruturais que o parasita Trypanosoma cruzi causa no músculo cardíaco ao longo do tempo.
Limitações do estudo e desafios no acompanhamento
Apesar dos achados relevantes, o estudo aponta algumas limitações importantes. A estrutura do hospital impediu um acompanhamento estatístico robusto para associações modestas, o que significa que situações clínicas mais específicas podem não ter sido totalmente capturadas. Além disso, a realização de exames como o mapeamento eletroanatômico foi restrita por questões orçamentárias em alguns pacientes.
O acompanhamento da rotina de medicamentos e o protocolo pós-cirúrgico também apresentaram variações, influenciados por fatores que vão além do quadro clínico. A retenção de pacientes no período pós-alta foi alta, mas a duração variável do acompanhamento pode subestimar eventos tardios, especialmente para aqueles em regiões remotas com barreiras socioeconômicas e logísticas.
A Doença de Chagas e seu impacto global
A Doença de Chagas ainda afeta milhões de pessoas globalmente. Estima-se que cerca de 7 milhões de indivíduos estejam infectados, enquanto outras 100 milhões residem em áreas de risco. A doença está presente em 21 países da América Latina e, pontualmente, em outras partes do mundo.
Menos de 10% dos infectados são diagnosticados, geralmente aqueles com as formas mais agressivas da doença. O diagnóstico tardio e a falta de acesso a tratamento adequado contribuem para a progressão das complicações, incluindo as cardiovasculares, que representam a principal causa de morbimortalidade associada à infecção.
Matéria produzida pela redação jornalística especializada do portal, com base em fontes verificadas e dados oficiais.