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quarta-feira, junho 3, 2026

Saberes Ancestrais e Prevenção: Cartilha Inovadora Une Terreiros e Combate ao Câncer em Mulheres Negras

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Saúde com Axé: Uma Nova Abordagem para a Prevenção do Câncer em Mulheres Negras

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) lançou uma iniciativa pioneira: a cartilha Saúde com Axé: mulheres negras e prevenção do câncer. Este material inédito, disponível online, busca unir os saberes ancestrais dos terreiros com o conhecimento científico para abordar a prevenção e o diagnóstico de cânceres mais frequentes entre mulheres negras.

A publicação detalha os tipos de câncer mais comuns no público feminino negro, além de indicar hábitos diários que influenciam o risco da doença. Um ponto crucial é a abordagem sobre como o racismo e o racismo religioso podem criar barreiras significativas no acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequados.

Com linguagem acessível e referências culturais afro-brasileiras, a cartilha do Inca foi elaborada para ser uma ferramenta de empoderamento e informação, conforme divulgado pelo próprio instituto. O material busca fortalecer as mulheres negras na busca por saúde e bem-estar.

O Poder da Conexão entre Saberes Tradicionais e Medicina Moderna

A cartilha se destaca por sua abordagem inclusiva, apresentando imagens de mulheres e famílias negras e utilizando a mitologia iorubá como fonte de inspiração. A publicação explica, de forma didática, a importância de práticas como a amamentação na prevenção do câncer de mama, além de alertar sobre os sinais de câncer de intestino e a transmissão do câncer de colo de útero por via sexual.

As figuras das yabás, orixás femininas, servem como símbolos de autocuidado e inspiração para uma vida plena. A cartilha incentiva a adoção de hábitos saudáveis e reforça a necessidade de exames periódicos, lembrando que a detecção precoce continua sendo a arma mais eficaz contra o câncer. As mulheres encontram orientações sobre os exames recomendados para cada fase da vida.

Terreiros como Espaços de Saúde e Acolhimento

Desenvolvida para circular em terreiros, a cartilha é fruto de uma pesquisa realizada entre 2023 e 2025, em parceria com mulheres de casas de candomblé no Rio de Janeiro. A pesquisa buscou entender a promoção da saúde e a prevenção do câncer em mulheres negras, integrando as práticas e o conhecimento dos terreiros.

A publicação aborda como o racismo pode agravar o risco de adoecer e dificultar o acesso a serviços de saúde, explorando, por exemplo, o mito de que mulheres negras suportam a dor de forma diferente. Iyá Katiusca de Yemanjá, do terreiro Obá Labí, uma das participantes da redação, ressalta as formas de discriminação enfrentadas.

“Na clínica da família onde a gente é atendida, quando a gente pede pra ser nomeada pelo nosso nome [da religião], a gente escuta provocação: ‘de onde você tirou esse nome?'”, relata Iyá Katiusca. Ela lidera um programa de saúde popular em seu terreiro, destacando que “os terreiros sempre promoveram a saúde” com banhos de ervas, chás e um cuidado especial com a saúde íntima feminina.

Combate à Discriminação e Fortalecimento do Cuidado

Mãe Nilce de Iansã, coordenadora-geral da Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), aponta a discriminação relacionada à indumentária como outro obstáculo. “Tem muitos casos de hospitais querendo que as pessoas tirem seus fios de conta para examinar o pé, a mão, desnecessariamente. Nós não usamos os fios de conta como enfeite, mas como proteção”, explica.

Para Mãe Nilce, que se tratou de câncer de pulmão no próprio Inca, o racismo religioso é um determinante social que impacta diretamente a vida das mulheres negras. Ela enfatiza que os saberes ancestrais podem ser um forte apoio tanto na disseminação de informações corretas quanto no acolhimento de mulheres diagnosticadas com a doença.

As autoras da cartilha reforçam que “os terreiros são locais de acolhimento, cuidado e solidariedade, espaços de cultura e de religiosidade afro-brasileira”. O diálogo entre esses universos e os saberes técnicos é visto como fundamental para a prevenção de doenças como o câncer, fortalecendo o corpo e a busca por serviços de saúde.

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